O rosto muito branco, emol-
durado pelos cabelos li-
geiramente ruivos, Tatiana
consultava Milena, a morena,
com o mesmo nome da amada de
Kafka, sobre o pastel da feira da
Barão de Capanema, o must das
quintas-feiras para os que mo-
ram ou trabalham perto da rua.
-Pensei num filé à cubana.
Ele me olhou, espantado. Mas
juro que vi em seus olhos um bri-
lho leve e fugaz. Depois, se emper-
tigou, sorriu:
-Lamento. Foi retirado do car-
dápio. Não percebeu?
Na verdade, recebi o cardápio

Mas o calor pa-
recia compri-
mir as pessoas.
Desistimos do
ritual semanal,
queríamos
uma sombra,
um lugar fres-
co. Pensei alto:
- Acho que
vou comer um
filé à cubana.
Elas me olha-
ram, a interroga-
ção estampada
a fogo nos ros-
tos jovens:
-Filé à cubana?
nem abri, tinha
entrado com o
prato escolhido,
e ali sempre se
fez o melhor filé
à cubana de São
Paulo. Aliás, se
fazia. Também
os pratos saem
de linha, então?
Sair de linha. Es-
sa atitude odio-
sa da indústria
que contempla
apenas os lu-
cros, não o pra-
zer dos clientes.
Quantos apare-
Mônica Zarattini/AE
Ignácio de Loyola Brandão
escreve as sextas neste espaço.
No restaurante de poucas me-
sas, ventiladores giravam com fú-
ria. O garçom se inclinou sobre a
mesa:
-O cavalheiro já escolheu? E
as meninas?
Era um senhor de idade, tal-
vez tenha se inclinado por não
escutar direito, talvez para
mostrar que atendia bem, dedi-
cava toda sua atenção a nós.
Poucos chamam o cliente as-
sim, em geral perguntam: E aí
doutor? Ou: Vai de que, ô tio?,
lhos tivemos de encostar, por te-
rem saído de linha e não encon-
trarmos mais peças de reposi-
ção? Mas, filé à cubana? Carne
ainda tem. E presunto, banana,
ervilha, palmito.
-Retirado do cardápio?
-Era um prato antigo.
-Pratos não ficam antigos.
-Ninguém pedia mais. Ficou
fora de moda.
-E que mal faz deixá-lo no car-
dápio?
-Ocupava espaço. Temos
pratos mais modernos.
-Modernos?
-Coisas boas para se comer.
Não vão envergonhar o senhor.
Vai ver as moças nem sabem o
que é filé à cubana. Elas preferem
coisas mais leves. Daiéte?
Aportuguesara o diet, acho eu,
com toda razão. Como se um pra-
to pudesse me envergonhar. Mas
a intenção do velho garçom era
boa. Tinha medo que uma pessoa
passasse, olhasse o filé à cubana
e dissesse: pratos como esse não
se comem mais. Não pega bem pe-
di-los. Vão achar o senhor antiqua-
do. Tem tanto prato novo. Porque
hoje vivemos segundo as tendên-
cias. Na moda, na beleza, no ginás-
tica, nas bebidas.
-E se eu não me importar de
ser visto comendo o filé?
-Pode pegar mal para a casa.
As pessoas dizendo: aquele res-
taurante é simpático, mas tem pra-
tos tão velhos. A freguesia ia cair!
-E se eu quiser insistir?
-Duvido. O gerente é fera!
-Apanho meu prato, vou co-
mer na mesa do fundo.
-Se ao menos tivesse um reser-
vado. Lembra-se? Os restauran-
tes tinham reservados.
-Aí, sim, veriam que é antigo.
-É mesmo!
-E se eu encomendar para via-
gem?
-Delivery, o senhor quer dizer?
-Não! Viagem mesmo. Eu mes-
mo levo!
-É... Pode ser... Por que não? A
gente faz o pacote na cozinha, nin-
guém sabe o que o senhor está le-
vando.
-Pois me prepare um filé à
cubana para viagem.
-Há quantos anos não escrevo
na comanda; filé à cubana. E era
dos pratos mais pedidos!
-E caros!
-Não era barato, não! Mas,
bom, hein?
-Será que o cozinheiro vai fa-
zer a banana à milanesa naquele
ponto? Sequinha e macia?
-Pode apostar que sim! Ainda
é o mesmo cozinheiro. Quanto
quer apostar que ele vem olhar
quem pediu?
Dito e feito. O cozinheiro, um
homem de óculos de aros gros-
sos, veio à abertura que havia na
parede da cozinha e varreu a sa-
la com o olhar. Acenei: sou eu.
Ele sorriu e fez um gesto: deixe
comigo. Se corresse, poderia
chegar ao trabalho, ir ao refeitó-
rio e ainda degustar meu filé
quentinho. Não sei por que, mas
nesse dia me veio a vontade des-
se prato. O do Gigetto, no come-
ço dos anos 60, era especial,
imenso, caro. Certos dias, assim
que recebia o salário, ia para lá
com um amigo, o David Auerbach,
ambos dispostos a rachar um filé à cubana! Uma noite de prazer.
O Frevinho da Oscar Freire
também fez um ótimo, por anos
e anos. Era um prato que não es-
tava no topo do ranking de pre-
ços. lnacessível era o camarão à
grega. Esse sim, proibitivo. Meu
Deus! Quando passava pelas me-
sas e via alguém comendo, me vi-
nha água na boca, eu estreme-
cia, sonhava. Uma noite, saí com
a morena Cibele, eu a adorava,
tanto quanto adorava seu nome.
E ela pediu: posso comer um ca-
marão à grega? Não se pode ne-
gar o pedido da mulher que pre-
tendemos conquistar. Pedi ca-
marão para ela e para mim uma
pavesa, a coisa mais barata que
o Gigetto tinha. Consomê com
ovo e pão no fundo. Sustentava.
Outra coisa que desapareceu
do cardápio foi o coquetel de ca-
marão. O estrogonofe, que era
chique, se abastardou, tem até
em restaurante a quilo. Mas nun-
ca mais comi um como os da
Baiúca ou do Dom Fabrizio.
Também a salada de batatas
com salsichas da extinta Sala-
da Paulista desapareceu; há
tentativas aqui e ali, irreconhe-
cíveis. O filé alpino da Caverna
do Bugre continua o mesmo? O Parreirinha se foi e com ele as
suas rãs.
E o frango assado
com macarrão do Giovanni da
Rua Timbiras, comido no bal-
cão, aos domingos? Crocante,
baratinho e inesquecível. O pi-
cadinho do Clubinho, ali na
Bento Freitas, embaixo do Ins-
tituto dos Arquitetos era insu-
perável. Sabores desta cidade.
Sabores da memória. Sabores
que são a assinatura de épocas.

ArtEstado/Paulo Lustig
O ESTADO DE S.PAULO • CADERNO 2 • 27/10/2002
IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO
Sabores, assinatura de épocas