NOITES PAULISTANAS
Um retrato da vida cultural de S. Paulo nos anos 50 e 60
Autor: Helvio Borelli
Editora Arte e Ciência - Páginas: 65, 66, 67 e 68
ARTIGO - "PARREIRINHA"
   
A cidade de São Paulo sempre possuiu muitos bares e restaurantes, mas poucos tiveram uma clientela tão identificada com a noite como o Parreirinha. Nunca foi sofisticado, mas provavelmente, pelo seu ambiente despojado, boa comida, simpatia e bom atendimento de seus sócios, os irmãos gêmeos Miro e Mário, a casa durou 56 anos. Fechou apenas 3 vezes: a primeira no fim da Segunda Guerra Mundial e as outras duas por vitórias do Corinthians, em 1967 na queda do tabu contra o Santos e na final de 1977, quando o time, depois de 23 anos na fila, foi campeão paulista.

Para fechar a casa eles tiveram problema: a porta estava enferrujada, por falta de uso. Os irmãos, cujos verdadeiros nomes eram Waldomiro e Waldemar Dias Coelho, respectivamente Miro e Mário, revezavam-se na gerência da casa. Um trabalhava de dia e outro à noite.
O primeiro endereço foi entre 1927 e 1965, na rua Conselheiro Nébias. Depois foi para a avenida Ipiranga, onde ficou até 1978; e na rua General Jardim até o carnaval de 2001, quando fechou definitivamente suas portas, devido à falta de clientes afugentados pela insegurança no centro da cidade.
O restaurante começou bem popular. Vendia café logo cedo e no restante do dia, o prato comercial, pinga, cerveja e vinho português de barril, daí o nome Parreirinha.

O cardápio evoluiu com o tempo, oferecendo alguns pratos mais sofisticados de peixes e frutos do mar, mas mantendo outros que marcaram sua existência, como: rã, mocotó, dobradinha, rabada, arroz e feijão e a tradicional feijoada, que era servida nas terças e sextas depois das 22 horas, sempre acompanhada de cerveja e caipirinha.

A freqüência era fiel. Algumas pessoas tinham até mesa cativa, que eram numeradas e batizadas com o nome do freguês. A número 23 era da cantora Inezita Barroso, a número 1 do humorista Ronald Golias, a 34 de Adoniram Barbosa, a 15 de Paulinho da Viola. Outros não tinham mesa personalizada, mas nem por isso eram menos importantes entre os ilustres e habituais clientes. Gente da música como Vicente Celestino, Ciro Monteiro, Ari Barroso, Dalva de Oliveira, Elizete Cardoso, Roberto Luna, Angela Maria, Izaurinha Garcia, Jorge Costa, Agostinho dos Santos, Martinho da Vila, João Dia, Jamelão e Lupicínio Rodrigues. Entre os jornalistas: Egas Muniz, Barbosa Reis, Orlando Criscuolo, Arlem Pereira, Ramão Gomes Portão e Boris Casoy. Era o local preferido de policiais que trabalhavam à noite, e rufiões como Heroíto, Xodó e Quinzinho – todos num ambiente de paz.
Foram poucas as brigas. Uma delas relembra, Miro, acabou saindo no Diário da Noite: "foi na década de 60. O ator Jardel Filho teve uma discussão com um garçom. Ele levou um chute e machucou o tornozelo, tendo que adiar a peça que iria estrear no dia seguinte na cidade".

  Adoniran Barbosa morava perto. O Parreirinha era seu local predileto. Almoçava e jantava na casa. Com um cigarro na boca, muitas vezes apagado, ele passava horas batucando sozinho. Compôs a música Iracema no restaurante. "Sou testemunha dessa história" revela Miro. "Tinha um rapaz cujo apelido era Cuíca. Todos os dias ele passava por lá, tocando um pandeiro e cantava uma música que falava de uma mulher – Iracema – que foi atravessar a rua e morreu atropelada. Ele passava de bar em bar, sempre cantarolando a mesma coisa. Um dia o Adoniran o chamou para sentar na sua mesa. Depois de muitos batuques saiu a música Iracema, que todos nós conhecemos".

Inezita Barroso gostava de comer camarão e o Lupicínio Rodrigues passava as noites batendo papo e tomando Caracu. Enchia a mesa de garrafas da cerveja preta. O compositor Ataulfo Alves dizia: "Seu Miro, muito obrigado pela noite que passou. Tomei minha caipirinha. Tomei minha canjinha de despedida, joguei sinuca e ninguém pediu para eu cantar Amélia. Hoje foi uma noite gostosa".
O Parreirinha não tinha música, mas em alguma comemoração, o cantor Roberto Luna, era localizado em alguma boate onde estava se apresentando, para dar uma esticada por lá e dar uma canja. Até o final da década de 60, os principais bares e restaurantes da cidade, ficavam na região das avenidas Ipiranga e São João. Era ali que ficavam os principais cinemas.

No período em que esteve instalado na avenida Ipiranga, em frente funcionava o Maravilhoso, um famoso "dancing" da época. Lá havia também bilhar, com famosos jogadores de sinuca, como o "Praça", o "Carne Frita" e o Joaquinzinho, que davam uma esticada até o Parrerinha.

Entre muitas histórias, há a de um cantor negro que se apresentava na rádio Record, o "Gasolina". Mário afirma que, por sua semelhança com o cantor, Pelé tinha o apelido entre os jogadores de "Gasolina".

Os principais concorrentes do Parreirinha no centro, foram os restaurantes: Spadone, Simpatia, Palhaço, Tabu, do Papai e a Salada Paulista. Nenhum com uma clientela tão especial e com uma rã tão gostosa.

São Paulo era ainda da garoa e os homens vestiam terno e gravata, alguns com chapéu e galocha. As mulheres só podiam freqüentar a noite, acompanhadas. Na época do governador Jânio Quadros, uma moça poderia ser presa, depois das 10 da noite, só porque ele queria acabar com a prostituição.
Inezita Barroso, foi uma das primeiras a sentar sozinha numa mesa de restaurante. Foi lá no Parreirinha e com muito respeito!

 
RESENHA
LIVRO "NOITES PAULISTANAS" RESGATA GLAMOUR E CULTURA DAS DÉCADAS DE 50 E 60
Registros da vida cultural e artística da cidade de S. Paulo nos anos 50 e 60, através de histórias contadas pelos protagonistas, estão no livro "Noites Paulistanas", do jornalista Helvio Borelli. Nos últimos dois anos, o autor entrevistou 40 músicos e personagens da noite paulistana daquela época, com supervisão e consultoria do músico Sabá (Jongo Trio).

"A literatura sobre a cultura brasileira, especialmente a musical, está muito centrada no Rio de Janeiro, porque era a capital, mas a vida boêmia paulistana criou, lançou e projetou expoentes em todos segmentos artísticos, como só uma cidade aberta ao novo - como é S. Paulo - poderia registrar”, comenta o autor.

Noites Paulistanas traz histórias contadas com muita emoção, como: as primeiras apresentações de César Camargo Mariano com 13 anos; o histórico show Três na Bossa, em abril de 1965 com Elis Regina, Jair Rodrigues e Jongo Trio; as pitorescas histórias das músicas Palpite Infeliz e Eu e a brisa; o roteiro das casas noturnas, incluindo as emblemáticas A Baiúca e Nick Bar. Uma preocupação foi descrever os principais teatros, hotéis e boates da época, para ter a exata dimensão dos palcos da boemia.

SOBRE A OBRA
"Noites Paulistanas" tem 156 páginas, com o registro de histórias e citação de vários personagens, bares, boates e restaurantes. O prefácio é do produtor e crítico de música Zuza Homem de Mello, que na época despontava como um dos mais importantes agitadores culturais do país. Sabá, o contra-baixista do Jongo Trio e apresentador de programa de rádio sobre MPB, foi o inspirador e consultor da obra, participou de toda pesquisa e entrevistas com as personagens do livro.

SOBRE O AUTOR
Helvio Borelli é jornalista há 30 anos, premiado com APCA em reportagem de rádio, foi repórter das rádios Jovem Pan, Globo/Excelsior, do jornal Folha da Tarde e hoje trabalha na Rádio Trianon de S.Paulo. Esse é o primeiro livro do jornalista, um aficcionado por MPB, futebol e pela cidade de São Paulo.

AGRADECIMENTOS
Agradecemos a Editora Arte & Ciência por nos conceder a autorização para a publicação deste excelente material.