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cidade de São Paulo sempre possuiu muitos bares e restaurantes,
mas poucos tiveram uma clientela tão identificada com a noite
como o Parreirinha. Nunca foi sofisticado, mas provavelmente, pelo
seu ambiente despojado, boa comida, simpatia e bom atendimento de
seus sócios, os irmãos gêmeos Miro e Mário,
a casa durou 56 anos. Fechou apenas 3 vezes: a primeira no fim da
Segunda Guerra Mundial e as outras duas por vitórias do Corinthians,
em 1967 na queda do tabu contra o Santos e na final de 1977, quando
o time, depois de 23 anos na fila, foi campeão paulista.
Para
fechar a casa eles tiveram problema: a porta estava enferrujada,
por falta de uso. Os irmãos, cujos verdadeiros nomes eram
Waldomiro e Waldemar Dias Coelho, respectivamente Miro e Mário,
revezavam-se na gerência da casa. Um trabalhava de dia e outro
à noite.
O primeiro endereço foi entre 1927 e 1965, na rua Conselheiro
Nébias. Depois foi para a avenida Ipiranga, onde ficou até
1978; e na rua General Jardim até o carnaval de 2001, quando
fechou definitivamente suas portas, devido à falta de clientes
afugentados pela insegurança no centro da cidade.
O restaurante começou bem popular. Vendia café logo
cedo e no restante do dia, o prato comercial, pinga, cerveja e vinho
português de barril, daí o nome Parreirinha.
O
cardápio evoluiu com o tempo, oferecendo alguns pratos mais
sofisticados de peixes e frutos do mar, mas mantendo outros que
marcaram sua existência, como: rã, mocotó, dobradinha,
rabada, arroz e feijão e a tradicional feijoada, que era
servida nas terças e sextas depois das 22 horas, sempre acompanhada
de cerveja e caipirinha.
A
freqüência era fiel. Algumas pessoas tinham até
mesa cativa, que eram numeradas e batizadas com o nome do freguês.
A número 23 era da cantora Inezita Barroso, a número
1 do humorista Ronald Golias, a 34 de Adoniram Barbosa, a 15 de
Paulinho da Viola. Outros não tinham mesa personalizada,
mas nem por isso eram menos importantes entre os ilustres e habituais
clientes. Gente da música como Vicente Celestino, Ciro Monteiro,
Ari Barroso, Dalva de Oliveira, Elizete Cardoso, Roberto Luna, Angela
Maria, Izaurinha Garcia, Jorge Costa, Agostinho dos Santos, Martinho
da Vila, João Dia, Jamelão e Lupicínio Rodrigues.
Entre os jornalistas: Egas Muniz, Barbosa Reis, Orlando Criscuolo,
Arlem Pereira, Ramão Gomes Portão e Boris Casoy. Era
o local preferido de policiais que trabalhavam à noite, e
rufiões como Heroíto, Xodó e Quinzinho
todos num ambiente de paz.
Foram poucas as brigas. Uma delas relembra, Miro, acabou saindo
no Diário da Noite: "foi na década de 60. O ator
Jardel Filho teve uma discussão com um garçom. Ele
levou um chute e machucou o tornozelo, tendo que adiar a peça
que iria estrear no dia seguinte na cidade".
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Adoniran
Barbosa morava perto. O Parreirinha era seu local predileto. Almoçava
e jantava na casa. Com um cigarro na boca, muitas vezes apagado, ele
passava horas batucando sozinho. Compôs a música Iracema
no restaurante. "Sou testemunha dessa história" revela
Miro. "Tinha um rapaz cujo apelido era Cuíca. Todos os
dias ele passava por lá, tocando um pandeiro e cantava uma
música que falava de uma mulher Iracema que foi
atravessar a rua e morreu atropelada. Ele passava de bar em bar, sempre
cantarolando a mesma coisa. Um dia o Adoniran o chamou para sentar
na sua mesa. Depois de muitos batuques saiu a música Iracema,
que todos nós conhecemos".
Inezita
Barroso gostava de comer camarão e o Lupicínio Rodrigues
passava as noites batendo papo e tomando Caracu. Enchia a mesa de
garrafas da cerveja preta. O compositor Ataulfo Alves dizia: "Seu
Miro, muito obrigado pela noite que passou. Tomei minha caipirinha.
Tomei minha canjinha de despedida, joguei sinuca e ninguém
pediu para eu cantar Amélia. Hoje foi uma noite gostosa".
O Parreirinha não tinha música, mas em alguma comemoração,
o cantor Roberto Luna, era localizado em alguma boate onde estava
se apresentando, para dar uma esticada por lá e dar uma canja.
Até o final da década de 60, os principais bares e
restaurantes da cidade, ficavam na região das avenidas Ipiranga
e São João. Era ali que ficavam os principais cinemas.
No
período em que esteve instalado na avenida Ipiranga, em frente
funcionava o Maravilhoso, um famoso "dancing" da época.
Lá havia também bilhar, com famosos jogadores de sinuca,
como o "Praça", o "Carne Frita" e o Joaquinzinho,
que davam uma esticada até o Parrerinha.
Entre
muitas histórias, há a de um cantor negro que se apresentava
na rádio Record, o "Gasolina". Mário afirma
que, por sua semelhança com o cantor, Pelé tinha o
apelido entre os jogadores de "Gasolina".
Os
principais concorrentes do Parreirinha no centro, foram os restaurantes:
Spadone, Simpatia, Palhaço, Tabu, do Papai e a Salada Paulista.
Nenhum com uma clientela tão especial e com uma rã
tão gostosa.
São
Paulo era ainda da garoa e os homens vestiam terno e gravata, alguns
com chapéu e galocha. As mulheres só podiam freqüentar
a noite, acompanhadas. Na época do governador Jânio
Quadros, uma moça poderia ser presa, depois das 10 da noite,
só porque ele queria acabar com a prostituição.
Inezita Barroso, foi uma das primeiras a sentar sozinha numa mesa
de restaurante. Foi lá no Parreirinha e com muito respeito!
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