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Aos
78 anos, Inezita Barroso relembra da
época da escola à boemia paulistana |
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Inezita
Barroso jogava futebol na rua (era o ponta-esquerda de seu time),
mas admirava muito um grande homem de letras que morava no bairro.
A Barra Funda daquela época era um lugar pacato. Na |
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| O ESTADO DE S. PAULO CIDADES 15/01/2004 - VALDIR SANCHES - Fotos Reprodução |
| Foto de 1949, quando Inezita Barroso ainda não era uma cantora profissional. |
| Cortaram
a fita, aquele negócio, e eu com um chapelão deste tamanho,
luva, salto alto, usava, né? Aí tinha aquela Guarda Civil
de honra, de luva branca, segurando uma lança. O Porfírio
do meu lado. Eu passei perto de um dos guardas. Quando eu passei, ouço
(imitando, pelocanto da boca): 'Inezita, eu sou o Ditão da Alameda
Olga, o ponta-direita, alembra?'" Inezita fez todos os seus estudos na Escola Caetano de Campos, na Praça da República (onde hoje está a Secretaria Estadual da Educação). "Nos tempos do ginásio, a gente saía da Caetano, baixava a meia três quartos e fazia uma soquete. Era horrível o uniforme! Uma saia meio justa, azul marinho, blusinha branca, de manguinha. E tinha um distintivo (no peito): ECC, Escola Caetano de Campos. Ficava grudado por um colchete. Aí na hora de passar na Barão de Itapetininga (a caminho do bonde) rancava tudo aquilo e punha na mala, para poder ficar mais ou menos chique." Na telona - "Penteava o cabelo, passava um batonzinho. Na escola, não. A escola era muito rigorosa. A dona Carolina Ribeiro, a diretora, era uma mulher maravilhosa. Só que muito brava. Um dia, o Cine Metro estava levando E O Vento Levou, quase quatro horas de projeção. Todo mundo assistia. 'Ah, mas é bom, vai naquela sessão da manhã...' A gente cabulou a aula e foram umas dez alunas da quarta série", lembra. "Aí atravessamos a praça, tiramos o distintivo, baixamos a meia e fomos para o Metro. |
| Estamos
lá no auge da paixão do Clark Gable, acende a luz do cinema.
Parou a filmagem. Era a dona Carolina, com um bedel, que era muito bravo.
Obrigaram a gente a colocar o distintivo, subir a meia e voltar para a
escola em fila indiana. Quase pegamos uma suspensão." O Viaduto do Chá e a Rua Barão de Itapetininga são, para Inezita, lugares inesquecíveis. Para tomar o bonde Perdizes (ela descia na Barra Funda), precisava caminhar pela Barão e atravessar o viaduto. Não era este, que conhecemos. Mas "o viaduto velho, estreitinho", que o antecedeu. Quanto à rua... "A Barão de Itapetininga era a coisa mais chique da paróquia. Tinha um desfile de carros conversíveis lustrados, maravilhosos. E a madame lá, com o motorista de boné e farda." O bonde Perdizes era um camarão (vermelho e fechado como um ônibus). "O que saiu de casamento por causa daquele bonde... Ele vinha pegando todo mundo, vinha descendo lá do alto, da Rua Caiubi (em Perdizes). Então entrava todo mundo, estudante de direito... Tinha aqueles flertes, namorinho. 'Ah, te encontro no bonde'. Muita gente ficou noiva, casou." A Barra Funda da infância está intacta na memória de Inezita. ''Era um bairro muito calmo, naquele tempo. De manhã passava o Leite Vigor. Era um carroção puxado por dois burros, ia derramando leite no chão. Batia um sino e as pessoas saíam com uma leiteira para encher e pagavam. E vinham as vendedoras de flores, eram geralmente portuguesas. |


| Desde a estréia na Record, ela conviveu com vários artistas que vinham à capital. |
| Formatura das alunas do 5º ano do Colégio Caetano de Campos: namoros vigiados. |
| que
era de organdi engomado, parecia uma borboleta louca. Aí tomávamos
o chá e vínhamos de ônibus. Já tinha o Perdizes,
na Praça do Patriarca." Passados tantos anos, Inezita, uma filha, três netas, um casal de bisnetos, sente falta de um lugar, em São Paulo, para encontrar os amigos e conversar. Esse lugar existiu para ela durante duas décadas. Em 1980, Inezita e Moraes Sarmento estrearam o programa Viola, Nossa Viola, no Teatro Cultura, no centro. Saíam das gravações à noite. Onde jantar, àquela hora? Encontraram um restaurante na Boca do Lixo. Mas estava difícil. "Era um lugar desagradável, freqüentado por baderneiros." Habitué-Certo dia passou pela Rua General Jardim e viu uma placa: Restaurante Parreirinha. Havia se mudado do endereço ànterior, na Avênida Ipiranga. ''Eu sempre levava os colegas que cantavam na Record, uma porção de gente que vinha do Rio e ia jantar lá, quando era na Ipiranga. Eu levava até a porta, mas nunca me convidaram para jantar." Inezita entrou no Parreirinha em nova casa. "Perguntei: 'Que hora fecha?' 'Não fecha'. 'Então, é amanhã mesmo'." Nunca mais deixou de ir. "Juntava o comer bem, com um papo bom. Entrava o Lourenço Diaféria (cronista), o Paulinho da Viola, eu dizia 'vem aqui para a minha mesa'. Ia juntando aquela mesa grande. O Jamelão também freqüentava a casa, mas não se misturava. Gostava de jantar só. Se alguém sentasse à sua mesa, fechava os olhos em cima do prato e fazia que estava dormindo até a pessoa levantar." O Parreirinha fechou no co meço da década. Há um sucesor? "A gente está meio perdida. Para comer encontra bons restaurantes, mas para conversar não tem mais." Inezita mora hoje numa rua arborizada de Santa Cecília, com nove passarinhos, um cão e uma tartaruga. Na sala, há uma cadeira estofada com veludo bordô e o nome da cantora, em letras douradas, no encosto. Era da mesa reservada para ela, no Parreirinha. |