Aos 78 anos, Inezita Barroso relembra da
época da escola à boemia paulistana

Inezita Barroso jogava futebol na rua (era o ponta-esquerda de seu time), mas admirava muito um grande homem de letras que morava no bairro. A Barra Funda daquela época era um lugar pacato. Na
Rua Lopes Chaves habitava Mário de Andrade.
O escritor modernista era quase vizinho da tia mais próxima de Inezita. A tia freqüentava o Conservatório Dramático, de Mário. "Eu devia ter 9 anos", recorda Inezita. "A minha tia contava aquelas maravilhas do Mário, dizia esse homem é um gênio'. Eu ficava maravilhada. Como ele é? Tinha uma curiosidade... A tia dizia que ele chegava em casa às cinco e meia, mais ou menos."
"Aí às 5 horas eu e minha prima (filha dessa tia) nos arrumávamos e íamos patinar na calçada até ele chegar. Mas ele nunca nem olhou para nós. O que ele iria olhar para uma menina patinando, enchendo com o barulho dos patins?" (Como consolação, a cantora leu toda a obra do escritor).
Inezita nasceu num domingo de carnaval, 78 anos atrás, numa rua próxima, a Lopes de Oliveira. Logo mudou-se para outra rua do bairro, a Rua Marta. Começou a tocar violão aos 7 anos. No ano do 4.° Centenário de São Paulo, 1954, estreou como cantora na também es
treante TV Record. Seu primeiro disco (uma bolacha de 78 rotações por minuto) tinha de um lado A Moda da Pinga; do outro, Ronda, de Paulo Vanzolini. A música da "marvada pinga" marcou sua carreira. Em meio século de voz e violão, lançou 80 discos.
"Eu era um pouco rebelde, gostava de brincar com moleque, jogar futebol. Meus amigos, todos homens; só tenho um irmão. Na minha rua tinha pouquíssimas meninas e elas brincavam com boneca, em casa. Eu jogava bolinha de vidro, futebol, pião. Era campeã de pião."
"No futebol, era ponta-esquerda. E tinha um garoto que era ponta-direita, ele morava na Alameda Olga, tinha um cortiço enorme, lá. Chamava Chiqueirão.
Aí quando faltava gente para jogar diziam, 'vai buscar o Ditão lá no Chiqueirão'." Em 1954, Inezita participa da cerimônia de inauguração da Bienal de São Paulo. "Estavam o Porfírio da Paz, vice-prefeito, as autoridades.

O ESTADO DE S. PAULO • CIDADES • 15/01/2004 - VALDIR SANCHES - Fotos Reprodução
Foto de 1949, quando Inezita Barroso ainda não era uma cantora profissional.
Nos bons tempos da marvada pinga
Cortaram a fita, aquele negócio, e eu com um chapelão deste tamanho, luva, salto alto, usava, né? Aí tinha aquela Guarda Civil de honra, de luva branca, segurando uma lança. O Porfírio do meu lado. Eu passei perto de um dos guardas. Quando eu passei, ouço (imitando, pelocanto da boca): 'Inezita, eu sou o Ditão da Alameda Olga, o ponta-direita, alembra?'"
Inezita fez todos os seus estudos na Escola Caetano de Campos, na Praça da República (onde hoje está a Secretaria Estadual da Educação). "Nos tempos do ginásio, a gente saía da Caetano, baixava a meia três
quartos e fazia uma soquete. Era horrível o uniforme! Uma saia meio justa, azul marinho, blusinha branca, de manguinha.
E tinha um distintivo (no peito): ECC, Escola Caetano de Campos. Ficava grudado por um colchete. Aí na hora de passar na Barão de Itapetininga (a caminho do bonde) rancava tudo aquilo e punha na mala, para poder ficar mais ou menos chique."
Na telona - "Penteava o cabelo, passava um batonzinho. Na escola, não. A escola era muito rigorosa. A dona Carolina Ribeiro, a diretora, era uma mulher maravilhosa. Só que muito brava. Um dia, o Cine Metro estava levando E O Vento Levou, quase quatro horas de projeção. Todo mundo assistia. 'Ah, mas é bom, vai naquela sessão da manhã...' A gente cabulou a aula e foram umas dez alunas da quarta série", lembra.
"Aí atravessamos a praça, tiramos o distintivo, baixamos a meia e fomos para o Metro.
Estamos lá no auge da paixão do Clark Gable, acende a luz do cinema. Parou a filmagem. Era a dona Carolina, com um bedel, que era muito bravo. Obrigaram a gente a colocar o distintivo, subir a meia e voltar para a escola em fila indiana. Quase pegamos uma suspensão."
O Viaduto do Chá e a Rua
Barão de Itapetininga são, para Inezita, lugares inesquecíveis. Para tomar o bonde Perdizes (ela descia na Barra Funda), precisava caminhar pela Barão e atravessar o viaduto. Não era este, que conhecemos. Mas "o viaduto velho, estreitinho", que o antecedeu.
Quanto à rua... "A Barão de Itapetininga era a coisa mais chique da paróquia. Tinha um desfile de carros conversíveis lustrados, maravilhosos. E a
madame lá, com o motorista
de boné e farda."
O bonde Perdizes era um camarão (vermelho e fechado como um ônibus). "O que saiu de casamento por causa daquele bonde... Ele vinha pegando todo mundo, vinha descendo lá do alto, da Rua Caiubi (em Perdizes). Então entrava todo mundo, estudante de direito... Tinha aqueles flertes, namorinho. 'Ah, te encontro no bonde'. Muita gente ficou noiva, casou."
A Barra Funda da infância está intacta na memória de Inezita. ''Era um bairro muito calmo, naquele tempo. De manhã passava o Leite Vigor. Era um carroção puxado por dois burros, ia derramando leite no chão. Batia um sino e as pessoas saíam com uma leiteira para encher e pagavam. E vinham as vendedoras de flores, eram geralmente portuguesas.
Desde a estréia na Record, ela conviveu com vários artistas que vinham à capital.
Formatura das alunas do 5º ano do Colégio Caetano de Campos: namoros vigiados.
Passavam de manhã, com cestas de flores na cabeça. Era bonito. Elas eram saudáveis, coradas, punham as cestas no chão e você escolhia as flores."
Dia-a-dia - "Outra coisa eram
as verduras, o carrinho do verdureiro. Fora as guloseimas
que passavam de tarde. Tinha um pregão próprio de cada vendedor, a gente ouvia e já saía correndo. Era um biscoitão de polvilho enorme, tinha mais de um palmo. A gente ia comprar e ainda estava meio quente. Também pinhão. (Imita) 'Pinhão, quente...' Era um tostão, vinha uma mão cheia."
O pai levava Inezita e o irmão passear nas margens do Tietê. Colocou-os sócio do Clube Tietê, nas margens do rio. "Nadei no cocho do Tietê, quando era limpo (era um cercado vazado, que fazia as vezes de piscina). Passava lambari de rabo vermelho den
tro do coxo. Depois eu fui para a piscina, um alemão que dava aula. Seis e meia da manhã tinha que estar no clube. Água gelada, neblina, garoa. E ele (imitando sotaque alemão): 'Pula n'água'. E eu, uh, está fria... 'Pula n'água senão empurro'."
O Mappin ficava na Praça do Patriarca (ainda não mudara para a Ramos de Azevedo). "Meu pai vinha: 'Vamos ao dentista'. Era um inferno, a gente morria de medo do motor. Dizia: 'Se você deixar tratar bem quietinha, depois eu levo no chá do Mappin'. Era a coisa mais maravilhosa de São Paulo", diz.
"Era chá ou chocolate, uma cesta de pães variados, bolo, petit four, era a glória. Eu ia bem vestida, bem bonita. Vestido com babadinhos, para baixo dos joelhos, bem rodado. E o laço maldito no cabelo. Laço de fita,
que era de organdi engomado, parecia uma borboleta louca. Aí tomávamos o chá e vínhamos de ônibus. Já tinha o Perdizes, na Praça do Patriarca."
Passados tantos anos, Inezita, uma filha, três netas, um casal de bisnetos, sente falta de um lugar, em São Paulo, para encontrar os amigos e conversar. Esse lugar existiu para ela durante duas décadas. Em 1980, Inezita e Moraes Sarmento estrearam o programa Viola, Nossa Viola, no Teatro Cultura, no centro. Saíam das gravações à noite. Onde jantar, àquela hora? Encontraram um restaurante na Boca do Lixo. Mas estava difícil. "Era um lugar desagradável, freqüentado por baderneiros."
Habitué-Certo dia passou pela Rua General Jardim e viu uma placa: Restaurante Parreirinha. Havia se mudado do endereço ànterior, na Avênida Ipiranga. ''Eu sempre levava os colegas que cantavam na Record, uma porção de gente que vinha do Rio e ia jantar lá, quando era na Ipiranga. Eu levava até a porta, mas nunca me convidaram para jantar."
Inezita entrou no Parreirinha em nova casa. "Perguntei: 'Que hora fecha?' 'Não fecha'. 'Então, é amanhã mesmo'." Nunca mais deixou de ir. "Juntava o comer bem,
com um papo bom. Entrava o Lourenço Diaféria (cronista), o Paulinho da Viola, eu dizia 'vem aqui para a minha mesa'. Ia juntando aquela mesa grande. O Jamelão também freqüentava a casa, mas não se misturava. Gostava de jantar só. Se alguém sentasse à sua mesa, fechava os olhos em cima do prato e fazia que estava dormindo até a pessoa levantar."
O Parreirinha fechou no co
meço da década. Há um sucesor? "A gente está meio perdida. Para comer encontra bons restaurantes, mas para conversar não tem mais." Inezita mora hoje numa rua arborizada de Santa Cecília, com nove passarinhos, um cão e uma tartaruga. Na sala, há uma cadeira estofada com veludo bordô e o nome da cantora, em letras douradas, no encosto. Era da mesa reservada para ela, no Parreirinha.