Parreirinha não é só um restaurante da cidade, mas uma verdadeira instituição.
Faz parte da vida dos maiores boêmios da cidade, desde motoristas de táxis as táxi-girls,
artistas, personalidades do futebol e jornalistas. Completando 50 anos, como definiu Egas
Muniz, o Parreirinha “é freqüentado por gente que sempre soube e sabe desfrutar dos
prazeres que só a alta madrugada patrocina”.
“ Tratamos nossos fregueses como amigos. Esse é o nosso segredo ”
O difícil é encontrar tempo. Mas, quando 
pode, Miro, um dos sócios do restaurante
Parreirinha, (o outro é seu irmão gêmeo,
Valdemar) gosta mesmo é de disputar in- termináveis partidas de sinuca com seu
amigo Paulinho da Viola – um "taco", igualmente, muito respeitado nas rodas de sambas da cidade. Agora, onde o Miro - Valdomiro Dias Coelho, como consta no seu registro de nascimento - se sente muito mais a vontade, é na cozinha do número 284 da General Jardim: justamente, o endereço deste Parreirinha - sem dúvida alguma, um dos restaurantes mais tradicio- nais de São Paulo. E é na cozinha que Miro prepara inesquecíveis peixadas, com aquela sua experiência de mestre-cuca de talento.
- Não há segredo nenhum na minha peixada. O importante é que a gente não invente nada nos temperos. É tudo muito simples. Por sinal, neste mês de janeiro, o velho Parreirinha completou seus 50 anos de vida. Cinquenta anos, que marcaram, muito especialmente, a vida boemia da cidade.
Afinal, trata-se de um desses restaurantes que, desde a sua inauguração, caiu nas graças da gente da noite:
- Sempre foi assim – conta Miro. No princí- pio, nossos primeiros fregueses eram os motoristas de táxi. Mais para a madrugada começavam a chegar os bailarinos, as táxis-girls, para tomar sopa.
Miro, um dos donos do Parreirinha que comanda a cozinha de perto.
 
O PONTO DE ENCONTRO DA
MADRUGADA
E, na realidade, bem que pode afirmar-se
que existe uma verdadeira "família 
Parreirinha". Basta que se veja a 
quantidade de cartões postais que Val- 
demar e Valdomiro recebem de todas as 
partes do mundo que os membros da 
"clã" não deixam de mandar: 
– Temos cartões que nós chegam até da 
China, você imagine. E o pessoal reclama 
muito sentir saudades do Brasil e, também, 
do nosso Parreirinha, que também faz
parte da vida de todos eles. 
E quem são essas pessoas? Bem, elas são 
desde este velho policial aposentado, 
Nicola Tonezi – o Zulu – até Angela 
Maria, passando por Lucio Alves, Ca- 
terina Valente, o falecido Agostinho dos 
Santos, Francisco Canaro, Lucho Gatica, 
Paulinho da Viola, muitos jornalistas e 
gente ligada ao teatro e ao futebol. No 
fundo, o Parreirinha é uma instituição de 
São Paulo: 
– A verdade é que, durante esse tempo 
todo, nós resistimos com nosso estilo e 
com nossas especialidades principais que 
são os frutos do mar. Alguns restaurantes 
tentaram seguir nosso estilo mas não con- 
seguiram. Acho que é porque, aqui no 
Parreirinha, todo mundo se conhece. 
Mas existe outro detalhe que faz do 
Parreirinha um restaurante especial, 
dentro da vida da cidade. Acontece que 
nem Valdomiro e nem Valdemar são 
casados. E isso e fácil de explicar: 
– Acho que não tivemos tempo para isso. 
 E acabamos "casando" com o restaurante. 
 
 Agora, se essas moças estivessem 
acompanhadas de algum homem que 
tivesse um pouco mais de dinheiro, era 
certo que iriam pedir algum prato mais 
caro do que a simples sopa de todas as 
madrugadas. 
O segredo deste restaurante? Miro e 
Nelson Pinto (38 anos de serviço) garantem 
que não existe segredo nenhum. Ou, 
seja existe, e tudo uma questão de sim- 
plicidade. De fazer com que os fregueses 
esqueçam que estão num restaurante e, 
"se sintam em casa". 
– Não tratamos nossos fregueses como 
fregueses. Mas como amigos. Acho que 
esse é o nosso segredo. E deu certo, a 
idéia implantada pelo velho Alberto e 
dona Leolinda Dias Coelho, quando 
inauguraram o então "Café da 
Mocidade", em 1923, na praça da 
República. Depois, o restaurante mudou-se 
para a Conselheiro Nébias, já com o 
nome "Parreirinha", onde ficou até 1965. 
Naquele ano, o velho restaurante 
instalou-se no número 895 da avenida 
Ipiranga, onde permaneceu até o ano 
passado, antes de, finalmente, vir para 
este endereço: 
– Continuamos a mesma casa de sempre. 
E os fregueses mais antigos, como o 
Valdemar de Brito, por exemplo – o 
homem que descobriu o Pelé – estão 
freqüentando, normalmente, nosso res- 
taurante. Aqui, temos mais espaço e o  
estacionamento é mais fácil. 
 
Talvez quem tenha melhor definido o es- pírito deste restaurante é o jornalista, Egas Muniz, seguramente, o homem que imprimiu dignidade ao colunismo mundano, ao escrever que o Parreirinha era freqüentado por "gente que sempre soube e ainda sabe desfrutar dos prazeres que só a alta madrugada pode patrocinar". Verdade que Miro não tem tempo de se dedicar só à cozinha, onde prepara as peixadas com receita sua, exclusiva, pois dirigir o restaurante, durante a noite, é bem mais trabalhoso. Agora, se um velho conhecido da casa – e mesmo fregueses de primeira viagem – insistirem, é bem capaz dele mesmo arregaçar as mangas e ir preparar sua especialidade, o "bacalhau à Parreirinha": um prato capaz de deixar qualquer "gourmet" com água na boca. – Nosso forte também são as rãs. E sempre com a preocupação de prepará-las dentro de uma receita simples, sem sofisticar nada, que é como o pessoal mais aprecia. Quando menos se espera, Miro desaparece na cozinha, para reaparecer uma boa meia-hora mais tarde, com uma generosa peixada nas mãos, que um antigo freguês fez questão que ele mesmo prepara-se. E o velho senhor come com indisfarçável prazer. Como se estivesse em estado de graça...
Cabral Junior
GENTE • SUPLEMENTO ESPECIAL DE ULTIMA HORA 11 DE FEVEREIRO DE 1979