O craque do futebol
que virou chocolate
 
Popularidade e talento de Leônidas da Silva inspirou a Lacta a criar o Diamante Negro
J.A. DIAS LOPES
Especial para o Estado
 
  A famosa bicicleta: terror dos goleiros e alegria das multidões Leônidas da Silva: lenda viva apreciava o virado à paulista
             
Restam cada vez menos testemunhas de suas jogadas geniais, pois ele abandonou o futebol profissional em 1950. Além disso, a televisão estava apenas estreando no Brasil e o videoteipe ainda não existia. Mas as últimas gerações de brasileiros cresceram ouvindo falar de Leônidas da Silva e da alegria, que infundia no País, com a bola nos pés. Habilidoso, rápido, malabarista, imprevisível e goleador, desestabilizava os marcadores, aterrorizava os goleiros e levava multidões ao delírio. Ficou conhecido como o "pai da bicicleta" -lance no qual o atleta salta com as pernas para o ar e chuta para trás, por cima da própria cabeça - mas recusava a primazia. Atribuía a invenção desse gesto acrobático ao colega Petronilho de Brito. Eduardo Galeano, no livro Futebol no Sol e à Sombra (L&PM Editores, Porto Alegre, 1995), conta que os gols de bicicleta de Leônidas eram tão deslumbrantes que até o goleiro adversário saía para cumprimentá-lo.
Considerado um dos maiores talentos do futebol brasileiro, Leônidas teve sua
biografia publicada exaustivamente na imprensa, uma semana atrás, porque morreu dia 24, em Cotia, São Paulo. Mas convém repetir alguns de seus episódios. O ídolo que subiu no degrau mais alto do pódio do futebol e cujo talento pode ser comparado ao de Pelé, nasceu no bairro carioca de São Cristóvão, em 1913, e começou a atuar profissionalmente em 1930, no Sírio Libanês de sua cidade. Com a dissolução do time, transferiu-se para o Bonsucesso, depois mudou para Montevidéu, onde vestiu a camiseta do Peñarol.
  Retornando ao Rio, foi contratado pelo Vasco, ajudando-o a vencer o campeonato carioca de 1934. A seguir, integrou a equipe do Botafogo, campeã da cidade em 1935, e finalmente a do Flamengo, vencedora da mesma competição em 1939. Em 1941, brigou com os dirigentes do clube e veio para São Paulo, onde se radicou para sempre. A transação envolveu a quantia de 200 contos de réis, um recorde na época. Embora fosse considerado "velho para o futebol", ajudou o São Paulo a ganhar os campeonatos paulistas de 1943, 1945, 1946, 1948 e 1949. Atuou na Copa d do Mundo de 1934, na Itália, na qual o Brasil foi eliminado pela Espanha na única partida disputada; e na de 1938, na França, em que ficamos com o terceiro lugar. Mas Leônidas foi o artilheiro da última competição - e, por iniciativa da Lacta, virou chocolate. A empresa, que hoje pertence à KraftFoods, tinha como presidente Assis Chateaubriand. Aproveitou a grande popularidade do jogador para rebatizar um novo produto. Relançou o Chocolate Lacta com o nome de Diamante Negro, um dos apelidos carinhosos do goleador- o outro era Homem-Borracha. Vendido em barras, até hoje faz sucesso. Leva açúcar cristal, manteiga de cacau, leite em pó integral, massa de cacau, soro de leite em pó, glucose, mel, leite em pó desnatado, gordura de manteiga desidratada, lecitina de soja e castanhade caju em pedaços, deliciosamente crocantes, sugerindo os cristais de uma jóia. Afinal, no invólucro de cada barra existe o desenho de um diamante lapidado.   O craque que virou chocolate era um grande apreciador de doces. Sua segunda mulher e companheira de muitos anos, Albertina Pereira dos Santos, em depoimento à jornalista Guta Chaves, publicado na revista Gula (edição 67, maio de 1998), ressaltou a predileção do marido pelos ovos nevados e pelo pudim de leite condensado, que a mãe fazia para ele, no Rio de Janeiro. Também apreciava o espera-marido - doce de leite mole levado ao fogo com leite, fervido até engrossar, enriquecido com ovos e servido com canela em pó. Infelizmente, Leônidas teve que evitar o prazer de saboreá1o, pois acabou diabético. Esse distúrbio do metabolismo, associado ao mal de Alzheimer, complicou sua saúde, fazendo com que permanecesse internado numa clínica, nos últimos dez anos.
Mas, enquanto foi possível, ele viveu bem. Alegre e comunicativo, sempre elegante, vestindo roupas boas, levava a mulher para comer em seus restaurantes favoritos de São Paulo.
O casal demonstrava gosto polivalente. Saboreava comida árabe no Bambi; churrasco no Dinho's Place; massas no Carlino; pizza na Castelões, uma das quais chamada bicicleta, com cobertura de alice e mozzarella; frutos do mar no Mexilhão; pratos tradicionais no Parreirinha; sanduíches no Ponto Chic; comida portuguesa no Rei do Bacalhau, especialidades alemãs no Windhuk. Eram lugares de bastante prestígio na época. Alguns continuam a ser; outros, nem tanto. Leônidas dizia que educou o paladar com a mãe, grande cozinheira.
  Ela preparava tanto doces como pratos de sal. Sua feijoada era antológica. Virou referência para o filho. Cada vez que comia esse prato, comparava-o com o feito pela mãe. Feijão, para ele, devia ser preto. Mulatinho ou branco, nem pensar. Também não gostava de moqueca baiana.
Detestava azeite-de-dendê e leite de coco. Preferia a capixaba, que dispensa os dois ingredientes.
A mãe de Leônidas também preparava excelente cozido e vários tipos de macarrão, um deles com delicioso molho de frutos do mar, que encantava o filho. O casamento com Albertina deu certo à mesa. A mulher de Leônidas igualmente cozinhava bem. Preparava-lhe pratos típicos, como dobradinha com arroz. Apesar de carioca, o marido incorporou no almoço o cardápio fixo da cidade adotiva, que apresenta um prato diferente a cada dia da semana. Às segundas-feiras, por exemplo, não dispensava o virado à paulista. A maioria desses hábitos surgiu depois de 1950. Ao deixar os gramados, Leônidas teve outras atividades, mas foi na função de comentarista de futebol que se deu melhor. Criterioso e respeitado, seguiu alimentando sua condição de lenda viva do esporte brasileiro. O Brasil jamais deveria esquecê-lo.
   
O ESTADO DE S.PAULO • CADERNO 2 • 30/01/2004