O campeão da madrugada
Não tem uma grande cozinha, não 
chega a ser barato e fica numa rua
por onde desfilam a noite prostitutas, travestis e cafetões.
Porque então ir ao Parreirinha?
Para conhecer uma boemia ignorada pela maioria dos paulistanos. Veja-se por exemplo, no meio do salão mal-ajambrado, que não fecha antes das 5 horas da manhã, a faceirice da mesa 23, com uma rosa fresca no vasinho e o nome de sua ocupante cativa bordado no encosto de veludo da cadeira: a cantora Inezita Barroso.
Ela senta-se ali quase toda noite, há mais de três décadas, em geral sozinha. Pede um uísque puro e depois uma cerveja sem gelo ("Não
estraga a voz", explica) para
acompanhar seu prato favorito, rãs
à inezita barroso (porção de quatro,
grelhadas ao alho e óleo, R$ 28,00).
 
Mesa 23: rosa e uísque para Inezita
   
Quem a atende é o garçom português Fernando Gomes, que trabalha lá há 41anos. 
Fernando nem é o mais veterano da brigada. Seu colega Augusto Pacheco tem um ano a mais de casa. Os dois parecem novatos perto dos donos, os irmãos Waldomiro e Waldemar Dias Coelho que comandam o Parreirinha, ininterruptamente,
desde 1944. Na ocasião, quando a II Guerra nem havia terminado, já era um restaurante de tradição. Foi aberto pelo pai deles no dia 1 de janeiro de 1927. Waldemar (que fica no balcão de dia) e Waldomiro (dá expediente a noite inteira) são gêmeos, tem 70 anos, moram juntos, conheceram várias gerações de notívagos e continuam solteiros. "Casamos com o restaurante”, diz Waldemar, todo pimpão ao listar parte da clientela: Ronald Golias, na mesa 1, sempre pede dois camarões de entrada (R$ 10,00), Paulinho da Viola só ocupa a 15, em frente a TV que transmite futebol, para traçar a pescadinha à paulinho da viola (grelhada com brócolis e batatas, R$ 20,00), o mesmo peixe, guarnecido de agrião, que o também elegante compositor
Ataulfo Alves ordenava quando vinha para cá. Bem no fundo, do lado esquerdo,
permanece vazia a mesa 34. Atrás dela encontra-se o retrato do compositor de voz rouca que o Parreirinha já teve: o grande Adoniran Barbosa, fã de bacalhau grelhado (meia posta com duas batatas cozidas, R$ 15,00).
Tel: 259-6887, Rua General Jardim, 284, centro (140 lugares).
11h/5h (fecha dom.) Cc.: D, M e V. Estac.
 
VEJA SÃO PAULO, 24/09/1997