CAIPIRA DA CIDADE GRANDE

Inezita Barroso nasceu na Barra Funda e nunca saiu da Cidade.
Mas é referência na música caipira.

       
    "Era uma cidade linda. A verdadeira noite de São Paulo, infelizmente, não volta mais. Não com aquele glamour."  
       
    "Sempre havía alguém de qualidade se apresentando por lá (no Restaurante Parreirinha). O Paulinho da Viola, o Jamelão..."  
       

Dona Ignez estava em trabalho de parto quando começou a ouvir a música se aproximando da janela. Estava em casa, na Rua Lopes de Oliveira, Barra Funda. Quando sua filha Ignez Magdalena Aranha de Lima nasceu, naquele 4 de março de 1925, os primeiros sons que o bebê ouviu foram seus próprios berros com o acompanhamento do Cordão da Barra Funda, que rompia a Quarta-Feira de Cinzas daquele ano.

Se já nasceu soltando a voz com acompanhamento musical, não tinha outro jeito: aquela garotinha tinha de ser cantora. E, assim, não fugiu à sina a pequena Ignez, que virou Inezita. Aos 7 anos, visitava parentes em Mogi-Mirim e ouviu pela primeira vez o som de uma viola caipira. "Me apaixonei na hora", lembra. Esse amor quase não deu certo. Seus pais preferiam óperas e clássicos eruditos. Óbvio que o romance teve de ser sem o apoio da família.

Mas Inezita chegou aos 22 anos e, após se formar em Biblioteconomia, na USP, casou-se com Adolfo, herdando o sobrenome e tudo de bom que ele lhe traria: a família Barroso (pernambucana) era de música popular e das artes. O cunhado, Maurício, por exemplo, era ator do TBC. Viveu noites maravilhosas na casa da sogra, na Rua Poconé (Sumaré), com muita conversa fiada, saraus e cantorias com gente do porte de Paulo Autran, Sérgio Cardoso, Paulo Vanzolini, Renato Consorte e muitos outros.

Em uma viagem a Pernambuco, em 1950, estreou profissionalmente na Rádio Clube do Recife. Cantou a convite de Capiba, o mestre do frevo. De volta a São Paulo, iniciou a carreira de sucesso, com a gravação de seu primeiro disco, com a Moda da Pinga, de Ochelsis Laureano, no lado A, e Ronda, de Paulo Vanzolini, no B. Assinou contrato como cantora exclusiva da Rádio Nacional, de São Paulo, onde se apresentava ao vivo nos estúdios da Rua 24 de Maio. Rompeu a hegemonia da música de origem carioca, colocando as músicas folclóricas e caipiras na pauta do rádio.

Eram as noites de shows em clubes de bairro, quermesses ou lugares mais sofisticados, como a boate do Hotel Esplanada, um dos mais luxuosos da cidade, atrás do Teatro Municipal, onde hoje está a sede do Grupo Votorantim. "Era um lugar deslumbrante. Tapetes macios, móveis de primeira linha, todo o luxo dos antigos cassinos. Os maiores nomes da sociedade paulistana freqüentavam esse lugar", conta.

Outro endereço da moda era o Avenida Danças, na Ipiranga, onde a orquestra do maestro Simonetti fazia bailar os enamorados. E se o rapaz não fosse casado, poderia usar os serviços das moças que trabalhavam lá, mas apenas para dançar. "Era uma cidade linda. A verdadeira noite de São Paulo, infelizmente, não volta mais. Não com aquele glamour."

Já nos anos 1970, depois dos shows, Inezita se encontrava com os amigos no Restaurante Parreirinha, na Rua General Jardim (Vila Buarque), onde tinha mesa cativa. "Sempre havia alguém de qualidade se apresentando por lá. O pessoal do Rio, quando vinha para São Paulo, sempre passava por lá. O Paulinho da Viola, o Jamelão... Também freqüentavam a casa publicitários, atores, jornalistas, meu amigo Moraes Sarmento..."

Inezita, hoje, não sai tanto. Há 25 anos, comanda o programa Viola, Minha Viola, na TV Cultura, e dá aula de Folclore em faculdades. Tornou-se uma referência na música caipira mesmo sendo absolutamente urbana, pois nunca deixou de viver em São Paulo em seus 80 anos de vida.

   
   
ACONTECEU COMIGO
O machucado que virou um estilo
 

Inezita estava com a tarde livre e não teria problemas em mostrar o seu belíssimo Standard Vanguard para um comprador. O carro, de origem britânica, estava em perfeito estado, com muito pouco uso naquele mês de maio de 1952. Ela poderia dar umas voltas com o sujeito antes de se preparar para a grande estréia na Rádio Nacional, na mesma noite.

Estava tudo planejado. Levaria seu violãozinho e tocaria e cantaria para milhares de pessoas nas ondas do rádio e, ao vivo, no auditório. Acontece que o rapaz se encantou com o carro e, distraído, bateu a pesada porta nos dedinhos de Inezita. O violão já era.

O plano B foi chamar um amigo para acompanhá-la ao piano. Para que as pessoas da platéia não ficassem hipnotizadas, com os olhos seguindo o enorme curativo nas mãos da cantora, ela se apresentou o tempo todo com as mãos para trás. Ninguém percebeu. A não ser o comediante Pagano Sobrinho, que passou a imitar a cantora em suas apresentações cantando e balançando o corpo com as mãos para trás.

E o machucado, por um bom tempo, virou estilo.

 
 
Texto de Reynaldo Gollo 
Fonte: Jornal da Tarde, 18/01/2006.