O ÚLTIMO TREM DE ADONIRAN
Vai ser difícil entrar no Parreirinha,
ali na Rua General Jardim, bem no
coração da Boca do Luxo, ao meio-
dia, e constatar que o freguês da
mesa 34 é apenas uma lembrança.
O Parreirinha é um dos restaurantes mais populares de São Paulo. Existe há 54 anos. Ali, diariamente, Adoniran baixava na hora do almoço.
Bebericava seu uísque, pensava na vida. Depois chamava o gerente, Valdemar Dias Coelho, o Mário, com um gesto, e perguntava:
-O que é que eu vou comer?
-Escalopinho à milanesa - sugeria Mário.
-Meia porção, tá?


"Tchau" -disse o poeta, há um mês, mais ou menos, despedindo-se do amigo Mário, gerente do Parreirinha. Acenou com uma das mãos, saiu, passos lentos, pela rua.
"Depois de almoçar - recorda-se Mário -, ele mudava de mesa. Ia sentar-se de frente pra rua. Em silêncio. As vezes, batucava bem devagarzinho, então a gente percebia que ele estava compondo. Chamava um dos garçons e pedia que fosse até a Lotérica fazer o seu jogo da Esportiva. Sempre alegre. Nunca se queixou, nem mesmo
ultimamente, apesar de estar doente."
-Mário olha para a mesa vazia. É
como se o poeta estivesse lá,
bebericando seu uísque. E então ele se virava para o amigo, pedia um cigarro e falava de uma de suas paixões: o Coríntians.
Antes das três da tarde, ele deixava o Parreirinha.

 
Adoniran Barbosa ocupava sempre esta
mesa de um bar paulista e batia papo com
o Mário. Para o compositor Paulo Vanzolini,
o ocupante da 34 "foi o único paulista a
invadir o Rio".
 

 

Texto de Júlio Saraiva • Foto de José Bosco
REVISTA MANCHETE - 11/12/1982