ADEUS, PARREIRINHA
Fecha o restaurante que, por 74 anos, foi reduto de atores, cantores e boêmios
As madrugadas de São Paulo nunca mais
serão as mesmas. No domingo de Car-
naval, silenciosamente, depois de 74
anos de história, uma instituição
paulistana deixou de funcionar. O
restaurante Parreirinha, na Rua
General Jardim, Vila Buarque,
ponto de encontro de cantores, 
jornalistas, policiais e gente da
noite, serviu pela última vez lula,
bacaIhau, pescada, camarão, ovas,
língua, dobradinha, mocotó, fígado e
músculo. Sem anúncio prévio, as portas
de ferro foram baixadas e encobriram a
vitrine em que ficavam expostas rãs pen-
duradas em ganchinhos. A princípio, ha-
veria apenas uma reforma na cozinha
para consertar rachaduras. Mas, como o
movimento andava fraco -1 300 refeições
por mês, contra 4 500 até meados
da década de 90 -, os gêmeos Waldemar, o Mário, e Waldomiro Dias Coelho, o Miro, donos da casa, decidiram suspen- der as atividades. Os dois trabalhavam no negócio fundado pelo pai, em 1927, des- de os 17 anos de idade. Nenhum dos dois se casou nem jamais tirou férias. Agora, aos 74 anos, foram morar com os so- brinhos no Morumbi e cuidar da saúde.
A qualquer hora da madrugada, os boê- mios eram recebidos por Miro, bom de conversa, de copo, de sinuca e carteado. Com o dia claro, ia para o apartamento onde morava com o
 
 
 
 
irmão, na Avenida Angélica. Era
rendido por Mário, que cui-
dava do salão no almoço,
comprava as mercado-
rias e tratava com os
fornecedores. Os dois
continuam parecidos,
mas já foram idênticos. Alguns clientes imagina- vam que se tratasse de uma única pessoa, que não dormia. De um deles, Miro levou uma bronca. À noite você conversa,
 
REVISTA VEJA SÃO PAULO - MARÇO 2001

Texto de Lúcia Monteiro

Lembranças de uma instituição paulistana:
a mesa 23, sempre reservada para Inezita
Barroso, que posa com um dos donos, Waldemar; o outro sócio, o irmão gêmeo Waldomiro, recebe Paulinho da Viola e Goulart de Andrade; Ronald Golias, que só
ia lá de calção, visita a cozinha; e o garçom João Pinheiro, quarenta anos de casa, exibe um badejo na frente da célebre vitrine das rãs.

verde. Ronald Golias (sem-
pre de calção) adorava a do-
bradinha. Jô Soares devorava 
camarão na moranga. Certos 
artistas, como o cantor Ciro 
Monteiro, iam para beber. Lu-
picínio Rodrigues entrava às 6 
da tarde e saía às 10 da manhã,
depois de esvaziar incontáveis
garrafinhas de Caracu. Jamelão,
puxador de samba da Manguei-
ra, traçava tudo que servissem.
Paulinho da Viola  não deixava
de aparecer quando vinha can-
tar em São Paulo. "As vezes, o
senta comigo. Mas, quando venho almoçar,  vo-
cê nem cumprimenta!"  É que Miro é falante e 
Mário raramente abre a boca. Diferentes no tem-
peramento, os dois têm em comum uma memória
de elefante. Conheciam os fregueses pelo nome,
sabiam quais eram seus pratos prediletos e a me-
sa preferida. Não houve integrante da velhaguar-
da da música brasileira que não aparecesse vez 
ou outra no Parreirinha. Adoniran Barbosa, que
segundo se acredita compôs na mesa 34 a músi-
ca Iracema, pedia escalope à milanesa. Beth Car-
valho gostava da pescadinha. Carlos Alberto de
Nóbrega comia rã. Ângela Maria tomava caldo
show acabava muito tarde e, cansado, eu ligava
dizendo que ia ficar no hotel", conta o sambista. 
"Miro mandava entregar uma canja para mim..."
A cantora e apresentadora Inezita Barroso, mo- radora do vizinho bairro de Santa Cecília, era a freguesa número 1. "Perdi meu escritório", lamen- tava na semana passada. Ela conheceu o lugar na década de 50, quando trabalhava na TV Re- cord. Na saída das gravações, a cozinha do Pa- rreirinha era uma das únicas que permaneciam abertas. "Eu levava os cantores que vinham do Rio de Janeiro para jantar lá", lembra. Entre eles estava Ataulfo Alves, a quem ela dava carona. Deixava-o na porta e ia dormir. "Eu morria de
vontade, mas naquele tempo não era ambiente para uma mulher." Quando a casa se mudou pa- ra o derradeiro endereço (começou na Rua Con-
selheiro Nébias e em seguida se transferiu para a Avenida Ipiranga), Inezita resolveu entrar. Ganhou mesa cativa, a 23. Ao vê-la, o garçom
Fernando Português, que trabalhou quarenta anos no restaurante, tirava a cerveja da geladeira. Ela bebia na temperatura ambiente, "para não estra- gar a voz", após a sagrada dose inicial de uísque Bell's. Se João Pinheiro, outro garçom com qua- renta anos de Parreirinha, quisesse servi-la, saía confusão. Cada garçom tinha seu cliente. Um dia,
ao chegar, Inezita encontrou uma cadeira de ve- ludo vermelho com seu nome gravado em letras douradas. Como havia artistas aos montes, eles
não eram incomodados. "Foi o único lugar em que tomei meu caldo verde, bebi caipirinha e nin- guém me pediu para cantar Amélia", disse Ata- ulfo Alves para Miro. Todos pagavam a conta,
exceto Adoniran Barbosa. Com o tempo, o mo- vimento caiu, e tudo foi enveIhecendo: as insta- lações, os donos, os garçons, os cozinheiros (na maioria, bigodudos), as panelas de alumínio e os
pesados pratos brancos de louça. "As pessoas sentem medo daquela região", afirma Mário. Nas imediações, junto à chamada Boca do Lixo, há prostitutas, travestis, cafetões e mendigos que dormem na rua. Nunca, porém, se soube de assaltos nem de roubos de carro na porta. Nada mais explicável. Investigadores e delegados de polícia batiam ponto no salão.
Era lá que Inezita comemorava seu aniversário. Miro mandava assar uma perna de cabrito para homenageá-la. No dia 4, quando ela completou 76 anos, pela primeira vez não houve mesa 23,
cabrito, TV ligada nem garçons insones carre- gando grandes travessas ao lado das paredes co- bertas de recortes de jornal, caricaturas e fotos dos freqiientadores que ficaram órfãos. Os ir- mãos dizem que "talvez, daqui a uns dois anos", poderão reabrir o restaurante. Do que ele tinha restou pouca coisa. Recolheram quase tudo de dentro e retiraram o letreiro da fachada. Mas o
Parreirinha permanecerá vivo na memória de quem, em alguma madrugada, se refugiou em suas mesas cobertas com toalhas amarelas para
matar a sede, a fome e a solidão..