show acabava muito tarde e, cansado, eu ligava
dizendo que ia ficar no hotel", conta o sambista.
"Miro mandava entregar uma canja para mim..." A cantora e apresentadora Inezita Barroso, mo-
radora do vizinho bairro de Santa Cecília, era a
freguesa número 1. "Perdi meu escritório", lamen-
tava na semana passada. Ela conheceu o lugar
na década de 50, quando trabalhava na TV Re-
cord. Na saída das gravações, a cozinha do Pa-
rreirinha era uma das únicas que permaneciam
abertas. "Eu levava os cantores que vinham do
Rio de Janeiro para jantar lá", lembra. Entre eles
estava Ataulfo Alves, a quem ela dava carona.
Deixava-o na porta e ia dormir. "Eu morria de vontade, mas naquele tempo não era ambiente
para uma mulher." Quando a casa se mudou pa-
ra o derradeiro endereço (começou na Rua Con- selheiro Nébias e em seguida se transferiu para a
Avenida Ipiranga), Inezita resolveu entrar.
Ganhou mesa cativa, a 23. Ao vê-la, o garçom Fernando Português, que trabalhou quarenta anos
no restaurante, tirava a cerveja da geladeira. Ela
bebia na temperatura ambiente, "para não estra-
gar a voz", após a sagrada dose inicial de uísque
Bell's. Se João Pinheiro, outro garçom com qua-
renta anos de Parreirinha, quisesse servi-la, saía
confusão. Cada garçom tinha seu cliente. Um dia, ao chegar, Inezita encontrou uma cadeira de ve-
ludo vermelho com seu nome gravado em letras
douradas. Como havia artistas aos montes, eles não eram incomodados. "Foi o único lugar em
que tomei meu caldo verde, bebi caipirinha e nin-
guém me pediu para cantar Amélia", disse Ata-
ulfo Alves para Miro. Todos pagavam a conta, exceto Adoniran Barbosa. Com o tempo, o mo-
vimento caiu, e tudo foi enveIhecendo: as insta-
lações, os donos, os garçons, os cozinheiros (na
maioria, bigodudos), as panelas de alumínio e os pesados pratos brancos de louça. "As pessoas
sentem medo daquela região", afirma Mário.
Nas imediações, junto à chamada Boca do Lixo,
há prostitutas, travestis, cafetões e mendigos que
dormem na rua. Nunca, porém, se soube de
assaltos nem de roubos de carro na porta. Nada
mais explicável. Investigadores e delegados de
polícia batiam ponto no salão. Era lá que Inezita comemorava seu aniversário.
Miro mandava assar uma perna de cabrito para
homenageá-la. No dia 4, quando ela completou
76 anos, pela primeira vez não houve mesa 23, cabrito, TV ligada nem garçons insones carre-
gando grandes travessas ao lado das paredes co-
bertas de recortes de jornal, caricaturas e fotos
dos freqiientadores que ficaram órfãos. Os ir-
mãos dizem que "talvez, daqui a uns dois anos",
poderão reabrir o restaurante. Do que ele tinha
restou pouca coisa. Recolheram quase tudo de
dentro e retiraram o letreiro da fachada. Mas o Parreirinha permanecerá vivo na memória de
quem, em alguma madrugada, se refugiou em
suas mesas cobertas com toalhas amarelas para matar a sede, a fome e a solidão..
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